Nuno Gomes-Morte anunciada é um exagero
João Querido Manha em Correio da Manhã

Um toque de calcanhar em meia-dúzia de minutos bastou para Nuno Gomes vincar a sua inteligência e aptidão futebolística numa selecção sem talento nem experiência com que Carlos Queiroz falhou, nesta semana, a abordagem de dois adversários de segunda categoria na qualificação para o Mundial de 2010. Se alguma certeza transitou da infausta jornada foi o erro clamoroso da ‘inutilidade’ de Nuno Gomes, cuja ‘morte futebolística’ não tem passado de uma notícia recorrente mas claramente exagerada – como diria Mark Twain.O axioma aplica-se em toda a linha à figura do goleador benfiquista, que sofre da mesma perseguição dentro do próprio clube, de onde nas últimas semanas têm sido expedidas sucessivas mensagens de hipotéticos interesses de emblemas estrangeiros, na esperança de que, como fez Petit, também ele desampare a loja e deixe roda-livre às contratações por atacado. Na Luz, como na Selecção em renovação, os 32 anos de Nuno Gomes despertam um preconceito contra a veterania que não tem cabimento no futebol moderno.O problema, para Rui Costa e para Queiroz, é que, nos pequenos universos onde se move, Nuno Gomes ainda consegue ser o melhor e manter um rendimento que provocaria saudades. Impressionante dilema este, gerado por um jogador que insiste em manter-se bem vivo desportivamente e cuja honestidade de processos contrasta com o exercício de poder dos treinadores, que não precisam de justificar as suas opções mais obtusas.Neste ano, o capitão encarnado não tem sequer padecido de problemas físicos e a assinatura de três golos de autor e importantes seria mais do que suficiente para justificar um posto na Selecção. Agora, fica entregue aos desígnios da sorte benfiquista, lutando para não ser uma cara velha num plantel que se alimenta, de forma viciada, das novidades do mercado.Depois de Outubro, com o restabelecimento de Suazo e Aimar no Benfica, é provável que o espaço de Nuno venha a ficar mais estreito, ajudando então Queiroz a legitimar a sua esdrúxula opção pelo monolítico Hugo Almeida. É um desafio tremendo o que se esconde na esquina da última etapa da carreira de Nuno Gomes, obrigado outra vez a ‘provar’ capacidades extremas, não obstante não existir quem se lhe compare no espectro da concorrência.OS ESTRANGEIROSNo Benfica, para satisfazer a turba- multa, tornou-se obrigatório contratar estrangeiros. Nestes dez anos, viu aterrar na Luz os parceiros mais exóticos, a todos ‘sobrevivendo’. Depois de Paulo Nunes, Deane, Saunders, Tote, Karadas, Delibasic, Marcel, Miccoli, Fonseca, Bergessio, Cardozo, neste ano chegaram Aimar e Suazo: um bom estímulo.OS JOVENSCom Scolari, perdeu a titularidade para Pauleta, e ao longo dos anos em que espreitava a oportunidade ainda teve de confrontar–se com as ‘revelações’ de Postiga e H. Almeida, além da concorrência de Ronaldo e das ‘ameaças’ de Makukula, Danny e Djaló, merecendo mais confiança dos adeptos que dos treinadores.RENOVAÇÃO OBRIGATÓRIAA opção do Benfica para este ano, com a tomada de poder por Rui Costa, pressupôs uma renovação global do plantel e da equipa, desde logo com o afastamento definitivo de um histórico como Petit e de ‘veteranos’ como Nélson, Nuno Assis ou Luís Filipe e com o cerco a outras figuras como Luisão, Léo, Mantorras – cada vez mais perto da porta de saída. A posição de Nuno Gomes, ‘a priori’, também devia contar deste lote de rostos a substituir, mas a capacidade de regeneração do goleador e a fragilidade física dos putativos substitutos têm-no agarrado à vida. Os próximos meses ajudarão a perceber se conseguirá resistir, tarefa quase impossível perante o investimento obrigatório nas novas figuras.ERRO DE “CASTING”Na Selecção, embora já pouco tenha a ver com a ‘escolinha’ do professor Queiroz, Nuno Gomes ainda corporiza a chamada ‘Geração de Ouro’, assumindo a transição para a nova vaga que alguns ainda vêem na fase final do Mundial de 2010. Mas o ‘casting’ estranho dos últimos jogos, que o deixou à margem de uma equipa sem poder ofensivo, já permite duvidar de que ainda venha a conseguir estar (e marcar) numa sexta fase final consecutiva, sendo claros os indícios de que o seleccionador prepara o afastamento dele dos planos de construção de uma “grande equipa”. Nuno Gomes pode não sobreviver ao desgaste de um treinador que convive mal com jogadores adultos.

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